sábado, janeiro 21, 2006

Silêncios, infância, sabores e gafanhotos

"Nenhum falou. O silêncio entre eles era cheio de mumúrios, de sombras, de coisas que corriam ao longe, numa época distante, escuras e furtivas. Ou talvez não. Provavelmente ficaram apenas calados, um em frente do outro, porque nada acharam para falar, e eu imaginei o resto."

"A minha infância está cheia de bons sabores. Cheira bem a minha infância. Lembro-me, sim, dos gafanhotos. Lembro-me das tardes em que choviam gafanhotos. O horizonte escurecia. Os gafanhotos caíam atordoados no capim, primeiro um ali, depois outro acolá, e eram logo, logo, devorados pelos pássaros. A escuridão avançava, cobria tudo, e no instante seguinte transformava-se numa coisa ansiosa e múltipla, num zumbido furioso, num alvoroço, e nós corríamos para casa, a procurara abrigo, enquanto as árvores perdiam as folhas e o capim desaparecia, em poucos minutos, devorado pela aquela espécie de incêndio vivo. No dia seguinte tudo o que era verde tinha desaparecido. Fausto Bendito contava que viu desaparecer assim, devorada pelos gafanhotos, uma carrinha verde. Deve ser exagero."

José Eduardo Agualusa "O Vendedor de Passados"

sábado, janeiro 14, 2006

Fugir é impossivel...

"Podem argumentar que todos estamos em constante mutação. Sim, também eu não sou o mesmo de ontem. A única coisa que em mim não muda é o meu passado..."

"Ao chegarmos a velhos apenas nos resta a certeza de que em breve seremos ainda mais velhos. Dizer de alguém que é jovem não me parece uma expressão correcta. Alguém está jovem, isso sim..."

"Era o fim, ou era quase o fim, só não se percebia de quê."

"A coragem não é contagiosa; o medo, sim."

"No Inverno, que podia acontecer em qualquer altura do ano, e normalmente acontecia, baixava do céu uma chuva de algas mortas. As ruas escureciam. As pessoas morriam de tristeza. Até os cães se enforcavam."

José Eduardo Agualusa "O Vendedor de Passados"

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Memórias e Pecados

"Detenho-me em frente às pessoas, falo com elas, sacudo-as, mas não dão por mim. Não falam comigo. Há três dias que sonho com isto. Na minha outra vida, quando tinha ainda forma humana, acontecia-me o mesmo com certa frequência. Lembro-me de acordar depois com a boca amarga e o coração cheio de angústia. Acho que nessa época era uma premonição. Agora é talvez uma confirmação. Seja como for já não me aflige."

“O pior pecado é não amar.”

"Ângela Lúcia está para as mulheres como a humanidade está para os símios."

"Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. Não era eu."

José Eduardo Agualusa "O Vendedor de Passados"