quinta-feira, agosto 03, 2006

As palavras e os nomes das cousas

“Antes de prosseguirmos convirá esclarecer que o termo nojo, posto pelo épico na boca do infeliz gigante, significava então, e só, tristeza profunda, pena, desgosto, mas, de há tempos a esta parte, o vulgar da gente considerou, e muito bem, que se estava ali a perder uma estupenda palavra para expressar sentimentos como sejam a repulsa, o asco, os quais, como qualquer pessoa reconhecerá, nada têm que ver com os enunciados acima. Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas.”
“Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes deste…”
José Saramago “As Intermitências da Morte”