terça-feira, novembro 28, 2006

Mentir com palavras bonitas é tão fácil, basta imprimir...

“Podia dizer-vos que, nas margens do rio Jerte, uma cigana adivinhou a data da minha morte, mas essa seria uma daquelas mentiras que se costumam espetar nos livros e, que por estarem impressas, parecem verdadeiras.”

Isabel Allende “Inês Da Minha Alma”

quinta-feira, novembro 23, 2006

Se as palavras magoam e a sua ausência também, resta-nos o quê?

“Permaneci imóvel, deixando-a pensar o que quisesse, e esperei que me cuspisse na boca e me arranhasse a cara, depois me enfiasse aquelas unhas nos olhos e os arrancasse das órbitas, eu tudo suportaria. Kriska porém não ergueu as mãos, preferiu não me tocar. Respirou fundo, abriu a boca para falar alguma coisa, e senti que, com uma palavra apenas, me causaria dano maior. Com uma só palavra Kriska me cobriria de vergonha, me aleijaria, me faria andar torto de arrependimento pelo resto da vida. A palavra estava ali nos seus lábios vacilantes, devia ser uma palavra que ela nunca se atrevera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, derivada da voz de alguma ave nocturna, uma palavra caída em desuso de tão atroz. Devia ser a única palavra que eu não conhecia, em todo o vocabulário magiar, devia ser uma palavra estupenda. Então não me contive e supliquei: fala! Kriska não falou. Expirou todo o ar que tinha, balançou a cabeça, voltou para a cama, se cobriu, se virou para o lado e apagou a luz.”

Chico Buarque “Budapeste”

terça-feira, novembro 21, 2006

Excepção ao espirito do blog...


Porque à tua maneira também criaste uma obra de arte, ainda que cada vez mais imperfeita e longe do que esperavas... aqui fica uma homenagem... agora que precisava tanto de ti, velhote...

Porque ele esteve cá e eu não fui ver e sobretudo porque a vida nunca corre como nós queremos...

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida me ensinou essa modinha

Chico Buarque "Até Pensei"

sábado, novembro 11, 2006

Mais sobre as palavras e o que elas dizem...

“Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más-línguas, o diabo respeita.”

“Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia.”

“Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos depressa, antes que virassem palavras húngaras.”

Chico Buarque “Budapeste”

sexta-feira, novembro 03, 2006

Humanidades...

“Momentos de fraqueza na vida qualquer um os poderá ter, e, se hoje passámos sem eles, tenhamo-los por certos amanhã.”

“A sombra tem um grave defeito, perde-se-lhe o sítio, não se dá por ela assim que lhe falta uma fonte luminosa.”

“Não, a morte não está satisfeita com o seu procedimento. Tem a certeza de que no estado de esqueleto nunca lhe teria ocorrido portar-se desta maneira, Se calhar foi por ter tomado figura humana, estas coisas devem pegar-se, pensou.”

“…em verdade o mundo está mais que farto de episódios como este, ele esperou e ela faltou, ela esperou e ele não veio, no fundo, e aqui para nós, cépticos e descrentes que somos, antes isso que uma perna partida.”

José Saramago “As Intermitências da Morte”

Isto é pessoal e tu saberás perceber

“…fiando-se na tantas vezes louvada sabedoria do tempo, aquela que nos diz que sempre haverá um amanhã qualquer para resolver os problemas que hoje pareciam não ter solução.”

“E o fim disto, qual vai ser, Ainda estamos no princípio.”

“…e assim ficaram, a olhar-se, dizendo sem necessidade de palavras, Pensando bem, não tenho ideia nenhuma de quem és, mas isso não conta, o que importa é que gostemos um do outro.”

José Saramago “As Intermitências da Morte”