quinta-feira, novembro 23, 2006

Se as palavras magoam e a sua ausência também, resta-nos o quê?

“Permaneci imóvel, deixando-a pensar o que quisesse, e esperei que me cuspisse na boca e me arranhasse a cara, depois me enfiasse aquelas unhas nos olhos e os arrancasse das órbitas, eu tudo suportaria. Kriska porém não ergueu as mãos, preferiu não me tocar. Respirou fundo, abriu a boca para falar alguma coisa, e senti que, com uma palavra apenas, me causaria dano maior. Com uma só palavra Kriska me cobriria de vergonha, me aleijaria, me faria andar torto de arrependimento pelo resto da vida. A palavra estava ali nos seus lábios vacilantes, devia ser uma palavra que ela nunca se atrevera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, derivada da voz de alguma ave nocturna, uma palavra caída em desuso de tão atroz. Devia ser a única palavra que eu não conhecia, em todo o vocabulário magiar, devia ser uma palavra estupenda. Então não me contive e supliquei: fala! Kriska não falou. Expirou todo o ar que tinha, balançou a cabeça, voltou para a cama, se cobriu, se virou para o lado e apagou a luz.”

Chico Buarque “Budapeste”

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