terça-feira, fevereiro 27, 2007

Parêntese (breves notas pessoais...)

1 - Aquela que um dia foi o meu mais-que-tudo (e agora é uma lembrança boa, porque quando dei por mim as más recordações já tinham desaparecido, graças a outra história que agora não interessa...) disse-me há bem pouco tempo: "quando não tens que fazer, inventas motivos para andar a correr, precisas do stress." Precisar não preciso, mas às vezes dá-me um jeitaço, acorda-me...

2 - Estive tanto tempo sem escrever poemas que quando esta diversão estilistica me surgiu ontem, de rajada e completo na sua ingénua simplicidade, fiquei agradavelmente surpreendido. Depois de velho voltei a sentir o prazer da inocência despretensiosa. Um dia destes ainda me apanho a rir como no tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

FORMALIDADES

O Eu diz ao Tu
que o Nós nunca existiu,
nasceu morto como uma história de vida
num romance minimalista.
Ele ganhou.
Vós sabeis do que eu estou a falar,
e Eles? São-no?

domingo, fevereiro 25, 2007

Cada um tem aquilo que merece...

“Há poucas razões para dizer a verdade, mas para mentir o número é infinito.”

Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

Dê lá por onde der, é sempre o que temos de nós...

“ – E conserva os teus sonhos – disse Miquel. – Nunca se sabe quando irás precisar deles.”

“Há pessoas que se recordam e outras que se sonham.”

Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

E na manhã seguinte, o segundo sábado daquele mês de dezembro, um telefonema, a voz da minha tia: já está filho, já foi...

“Observei-o em silêncio. Tinha o cabelo grisalho, escasso, e a pele do rosto começara a perder a firmeza em volta dos pómulos. Contemplei aquele homem que em tempos tinha imaginado forte, quase invencível, e vi-o frágil, derrotado sem ele saber. Derrotados porventura os dois. Inclinei-me para o abrigar com aquela manta que havia anos prometia doar à beneficência e beijei-lhe a testa como se quisesse protegê-lo assim dos fios invisíveis que o afastavam de mim, daquele andar acanhado e das minhas recordações, como se acreditasse que com aquele beijo podia enganar o tempo e convencê-lo a passar de largo, a voltar outro dia, outra vida.”

Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

Provocações...

“ – Não sei muito de mulheres, para dizer a verdade.
– Saber, ninguém sabe, nem Freud nem elas próprias, mas isto é como a electricidade, não é preciso saber como funciona para apanhar um choque nos dedos.”

“Como nos ensina Freud, a mulher deseja o contrário daquilo que pensa ou declara, o que, bem vistas as coisas, não é assim tão terrível, porque o homem, como nos ensina o Calino, obedece em contrapartida aos ditames do seu aparelho genital ou digestivo.”

“ – Também disse que telefonaria na sexta-feira. Já é segunda. É lá consigo. Uma coisa é acreditar nas mulheres e outra acreditar no que elas dizem.”

Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Cinco pérolas... e a voz a fugir...

“Naquela tarde de brumas e chuva miúda, Clara Barceló roubou-me o coração, a respiração e o sono. Ao abrigo da luz enfeitiçada do Ateneo, as suas mãos escreveram na minha pele uma maldição que havia de me perseguir durante anos.”

“O seu idioma eram as texturas e os ecos, a cor das vozes, o ritmo dos passos.”

“Uma das armadilhas da infância é que não é preciso compreender para sentir. Na altura em que a razão é capaz de compreender o sucedido, as feridas no coração já são demasiado profundas.”

“Talvez fosse por isso que a adorava mais, por essa estupidez eterna de perseguir os que nos fazem sofrer.”

“Senti que se me apertava a garganta e, à falta de palavras, mordi a voz.”
Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Tal e qual como as pessoas...

“Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mão, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte. (…) Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono.”

Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Quando eu me apercebi do mesmo já era tarde...

“Olhámo-nos na penumbra, procurando palavras que não existiam. Foi a primeira vez que me apercebi de que o meu pai envelhecia e de que os seus olhos, olhos de névoa e de perda, olhavam sempre para trás.”

Carlos Ruiz Zafón “A Sombra do Vento”

domingo, fevereiro 11, 2007

Há sempre caminhos...

“Um homem que, de noite, caminha sozinho e nada vê, já se sabe, leva a cabeça livre para todos os pensamentos, os mais amenos e também aqueles mais ásperos, conforme for a sua disposição para matutar nuns ou nos outros.”

“ – Quando um homem padece daquilo que tu sofres e de que eu já padeci, só dois caminhos se lhe oferecem: ou esquece o que até aí viveu e recomeça tudo como se não houvesse passado, ou desiste de viver. Neste caso, se tem coragem, mata-se. Se não tem, deixa cair os braços e espera que os deuses, ou lá o que seja, lhe façam um sinal qualquer.”

“Arrastando-se pelas pedras, como um réptil, sentiu-se mil vezes miserável, incapaz de lutar pelo amor que jurara defender com a própria vida.”

Manuel Jorge Marmelo “O Homem que Julgou Morrer de Amor”
2ª edição

Quando já se teve a certeza de ter provocado algo como isto não nos devemos contentar com menos...

“No dia em que conheceu Transímaco, porém, sentiu que uma parte dela tinha voltado a estar viva, que algo se alvoroçava. A garganta secou-lhe, as mãos humedeceram e, se lhe perscrutássemos os olhos, veríamos neles um brilho que se lhes não tinha notado antes.”

Manuel Jorge Marmelo “O Homem que Julgou Morrer de Amor”
2ª edição

Nós e as palavras...

“Quem entende como é a alma humana capaz de recordar palavras e acontecimentos passados como se agora mesmo se estivessem vivendo?”
“ – Digo-te apenas o que pode ser dito. As palavras valem apenas o que nelas quisermos ler e assim é desde que a primeira foi proferida.”
Manuel Jorge Marmelo “O Homem que Julgou Morrer de Amor”
2ª edição

terça-feira, fevereiro 06, 2007

O que as mulheres fazem…

“Entre os olhos dele e o aglomerado de edifícios há um véu que o incapacita de enxergar com clareza. Há uma imagem de mulher estampada no filtro através do qual olha e, por força desta, os caminhos de Atenas tomam a vez de cabelos, as janelas são como se fossem olhos dela e os oratórios revelam bocas de rubros lábios.”

“Está, enfim, transformado em fraco homem e disto tem nenhum orgulho.”

Manuel Jorge Marmelo “O Homem que Julgou Morrer de Amor”
2ª edição

Do inicio… e para sempre

“Quando alcançou o topo da colina, Transímaco tinha as vestes húmidas do esforço da subida e os olhos perlados de suor. Ou de lágrimas.”
Manuel Jorge Marmelo “O Homem que Julgou Morrer de Amor”
2ª edição
(um amigo do coração e de mais de metade da vida já deveria figurar neste espaço há muito tempo, mas este blog não é rectroactivo e tem, desde o inicio, seguido uma linha cronológica de leituras actuais e aleatórias; como mais vale tarde… cá está ele)