segunda-feira, setembro 24, 2007

Para ti, que não me irás ler...

“Parece-me agora, porém, bastante óbvio que só uma mulher desesperada e perdida como Atla se interessaria por um tipo como eu. Ou dito de outra forma: bela como era, espantosamente bela, só estando perdida e desesperada, completamente perdida e desesperada, uma mulher como Atla repararia em alguém como eu, cinzento e apagado como sou. E também é claro que, estando Atla perdida e desesperada, o convívio com alguém como eu não faria mais do que deixá-la mais perdida e desesperada, até ao ponto em que nos perderíamos os dois, para sempre e sem remédio.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

Murcon...

É a palavra-substantivo-adjectivo-conceito-definição que melhor me assenta. Sempre que a ouço na rua volto-me para cumprimentar quem a profere. Como no velhinho anúncio do perfume:

- Murcon...?

- Oui, c' est moi...

sexta-feira, setembro 21, 2007

O melhor é viver sem fronteiras... se possível...

"As fronteiras são aqui, em todo o caso, uma mera convenção. É um pouco como na vida: há um tempo em que se vive e, depois, um outro, no qual se recorda o que foi viver. É sempre um grande mistério, suponho, saber reconhecer que já se ultrapassou a fronteira que os separa aos dois.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

E alguém sabe...?

“A verdade, porém, é que não sei; não sei o que fazer com os amores passados. Enterrámo-los? Mantêmo-los vivos em nome dos momentos bons? Maldizemo-los por causa dos episódios de tortura? Ou, simplesmente, aprendemos a lição e seguimos adiante? Não sei.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

quinta-feira, setembro 20, 2007

E ainda por cima cultivamos a ilusão de que somos todos boa gente...

“Não conseguimos conceber a insanidade que varreu a Libéria, a loucura que arrasou o Ruanda, a cólera que mata em Angola ou a fome assassina da Etiópia. Somos todos, aí, civilizadíssimos e temos a maldade perfeitamente domesticada dentro de nós. Apenas permitimos que escape um pouco dela para dar curso às pequenas sacanices do quotidiano, para dizer mal deste ou daquele passar o semáforo vermelho, enganar o fisco, ostentar o carro que humilhe o vizinho, prejudicar o colega de trabalho. Tudo o resto é perfeitamente civilizado e urbano. Somos bestialmente europeus e desenvolvidos.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

domingo, setembro 16, 2007

Ai as mulheres...

“As mulheres podiam ser uma excelente companhia na vida de um homem se não tivessem o inconveniente de terem sido dotadas, em partes semelhantes, de beleza, inconstância e perfídia.”

“Em todo o caso, as mulheres são o que são: aparecem, insinuam-se metem-se-nos no coração e, em pouco tempo, tomam conta das nossas vidas. Colonizam-nos. Subvertem a nossa natureza e moldam-na de acordo com os seus caprichos. Se somos inocentes e fracos, podem transformar-nos em monstros sem coração. Se somo cruéis e duros, são capazes de domesticar-nos, reduzem-nos a quase nada. Tenho visto muitos casos semelhantes e foi isto que me tornou desconfiado.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

Eu também...

“Creio, em boa verdade, que são assim escritos todos ou alguns dos melhores livros que li: histórias com asas e que só escassamente contactam com a realidade, apenas o suficiente para que o leitor possa aderir ao delírio e acompanhá-lo como se de uma coisa do seu mundo se tratasse.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

Santa sabedoria...

“M. tem, às vezes, uma consciência aguda da sua estupidez. Creio que isso se deve ao facto de ele viver pior que nós, os que somos tão estúpidos como ele, mas preferimos ignorar as evidências e não lhes dar demasiada importância.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

terça-feira, setembro 11, 2007

Oh, Atla, where art thou?

“Atla era, pois, a deusa de um homem que tinha já desistido da divindade.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

sexta-feira, setembro 07, 2007

Duas grandes definições da minha vida profissional...

“Julgou que, concedendo a Atla características que não lhe pertenciam, seria capaz de iludir os danos daquela perda, do mesmo modo que certas pessoas fingem, durante a vigília, uma vida que não é a delas, ainda que, à noite, quando adormecem, os sonhos lhes recordem tudo o que procuram esquecer durante o dia.”

“M. herdará, por isso, alguns dos meus defeitos e outro tanto das minhas virtudes, mas é, ainda assim, uma personagem autónoma e dotada de personalidade própria. Há nele mais vida do que em muita gente que eu conheço.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

Ainda só vou na página 20 mas, menino, este é o teu melhor livro até à data...

“Nessa noite, porém, enquanto Atla esperava que chegasse a manhã do seu funeral, deitada, muito direita, no bojo de um caixão modesto, os sonhos dos homens da vila voltaram a povoar-se de imagens dela. Babaram as fronhas e murmuraram o seu nome. Voltaram-se nas camas e, dormindo, procuraram nos corpos das esposas presentes o prazer da mulher que jamais foi deles.”

Manuel Jorge Marmelo “Aonde o vento me levar”

quarta-feira, setembro 05, 2007

...de todos nós, mesmo!

“Já viram o pior de mim nestas confissões. Deixem-me pois lançar aqui no lado oposto do balanço aquilo que eu acredito verdadeiramente que é o melhor de mim: a minha devoção à vida espiritual, àquelas faculdades verdadeiramente divinas do intelecto e da imaginação que, quando exercidas ao máximo, podem fazer deuses de todos nós.”

Michael Cox “O Sentido da Noite – Uma Confissão”

terça-feira, setembro 04, 2007

Curiosidades, portas... pessoas, vidas...

“Ora eu não consigo resistir a uma porta meio aberta – tal como não consigo impedir-me de espreitar por uma janela iluminada e sem cortinas quando passo por ela numa noite escura. Posso respeitar a desejada privacidade proclamada por uma porta intencionalmente fechada; mas não se ela está meio aberta. Isso, para mim, é um convite que sempre aceitarei.”

Michael Cox “O Sentido da Noite – Uma Confissão”

Olhares que assustam...

“O desconforto causado por aquele olhar, a sua desconcertante combinação de impenetrabilidade e inteligência, afectava-me intensamente, produzindo uma espécie de paralisia da vontade. Sentia que ela me conhecia instantaneamente por aquilo que eu era, e por quem eu era, com todos os meus disfarces. Parecia-me que aqueles olhos tinham percebido todas as degradações da minha vida e registado todos os meus actos cometidos sob a luz do céu ou sob a capa da noite; que viam também aquilo de que eu era capaz e aquilo que, com tempo e oportunidade, havia de fazer. Senti-me de súbito inexplicavelmente com medo dela; porque eu soube então que não teria outro remédio se não amá-la, sem que nada me fosse dado em troca.”

Michael Cox “O Sentido da Noite – Uma Confissão”