quarta-feira, agosto 27, 2008

E quanto vale a felicidade?

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo "O Valor do Vento"

...o carácter absoluto dos sons que não esperam resposta...

“A pronúncia daquela língua desconhecida, deduzida de regras teóricas, que não fora transmitida pelo escutar das vozes com as suas inflexões individuais, que não estava marcada pelas marcas do uso que plasma e transforma, atingia o carácter absoluto dos sons que não esperam resposta, tal como o pio da última ave duma espécie já extinta ou o estridente estrépito dum pequeno avião acabado de inventar que se desfaz no céu no primeiro voo de ensaio.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

Da leitura...

“Escutar alguém que lê em voz alta é muito diferente de ler em silêncio. Quando lês, podes fazer paragens ou sobrevoar as frases: és tu que decides do tempo. Quando é um outro a ler é difícil fazer coincidir a tua atenção com o tempo da sua leitura: a voz ou segue fluente de mais ou lenta de mais.”

“O texto, que quando és tu a ler é algo que está ali, de encontro ao qual és obrigado a ir, quando é traduzido oralmente é qualquer coisa que está e não está, que não consegues tocar.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

sábado, agosto 16, 2008

Outra grande senhora, outra grande versão...

And now, the end is near;
And so I face the final curtain.
My friend, Ill say it clear,
Ill state my case, of which Im certain.

Ive lived a life thats full.
Ive traveled each and evry highway;
And more, much more than this,
I did it my way.

Regrets, Ive had a few;
But then again, too few to mention.
I did what I had to do
And saw it through without exemption.

I planned each charted course;
Each careful step along the byway,
But more, much more than this,
I did it my way.

Yes, there were times, Im sure you knew
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up and spit it out.
I faced it all and I stood tall;
And did it my way.

Ive loved, Ive laughed and cried.
Ive had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside,
I find it all so amusing.

To think I did all that;
And may I say - not in a shy way,
No, oh no not me,
I did it my way.

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things he truly feels;
And not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows -
And did it my way!

Claude François/Jacques Revaux/Paul Anka "My Way"

De férias com ternura...

oh she may be weary
them young girls they do get wearied
wearing that same old miniskirt dress
but when she gets weary
you try a little tenderness
oh man that
un hunh
i know shes waiting
just anticipating
the thing that youl never never possess
no no no
but while she there waiting
try just a little bit of tenderness
thats all you got to do
now it might be a little bit sentimental no
but she has her greavs and care
but the soft words they are spoke so gentle
yeah yeah yeah
and it makes it easier to bear
oh she wont regret it
no no
them young girls they dont forget it
love is their whole happiness
yeah yeha yeah
but its all so easy
all you got to do is try
try a little tenderness
yeah
damn that hart (hard?)
all you got to do is know how to love her
you've got to
hold her
squeeze her
never leave her
now get to her
got got got to try a little tenderness
yeah yeah
lord have mercy now
all you got to do is take my advice
you've got to hold her
don't squeeze her
never leave her
you've got to hold her
and never
so you got to try a little tenderness
a little tenderness
a little tenderness
a little tenderness
you've got to
got to got to
you've gotta hold her
don't squeeze her
never leaver her
you got
got got got to
now now now
got got got to
try a little tenderness
ye

"Irving King" (James Campbell and Reginald Connelly) and Harry M. Woods "Try A Little Tenderness"

A minha primeira semana de férias...

Tom Waits "The Piano Has Been Drinking"

De férias...

There’s a place for us
Somewhere a place for us
Peace and quiet and open air
Wait for us
Somewhere
There’s a time for us
Someday a time for us
Time together with time to spare
Time to learn
Time to care
Someday, somewhere
We’ll find a new way of living
We’ll find a way of forgiving
Somewhere
There’s a place for us
A time and a place for us
Hold my hand and we’re half way there
Hold my hand
And I’ll take you there
Somehow
Someday, somewhere

Leonard Bernstein and Stephen Sondheim "Somewhere"

quarta-feira, agosto 13, 2008

Dos aromas...

“E quando acaba a hora a visita a donzela sai com o fedor da prisão na sua roupa elegante; e o detido volta para a cela com o perfume da donzela nos seus trapos de condenado. E eu fico com o cheiro da cerveja. A vida não é mais do que uma troca de cheiros.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

Pois... problemas de tradução...

“Há dias em que cada coisa que vejo me parece prenhe de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir em palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que dizem respeito a mim mesmo e simultaneamente ao mundo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas aquilo que acontece dentro, no fundo, e do mundo não um qualquer facto singular mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem portanto a minha dificuldade em falar de tudo isto, a não ser por alusões.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

Do estado do mundo...

“Não que estudem a Língua, é coisa que ninguém quer fazer… Querem problemas para debater, ideias gerais para relacionar com outras ideias gerais.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

terça-feira, agosto 12, 2008

Tudo na vida é um problema de tradução...

“(…) por isso esta sensação de concretude que tu colheste desde as primeiras linhas leva consigo também o sentido da perda, a vertigem da dissolução, e também isso te dás conta de o ter percebido, como Leitor atento que satisfeito com a precisão desta escrita vias bem, para dizer a verdade, que tudo te fugia entre os dedos, talvez também por culpa da tradução, disseste a ti mesmo, que há nela uma grande fidelidade, mas certamente não é possível restituir a substância corposa que aqueles termos devem ter na língua original, qualquer que ela seja.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

sexta-feira, agosto 08, 2008

Ninguém é indiferente...

“(…) pelo contrário, em cada minuto que aqui passo deixo traços: deixo traços se não falo com ninguém na medida em que me qualifico como alguém que não quer abrir a boca; deixo traços se falo na medida em que a palavra dita é uma palavra que permanece e pode voltar de seguida a ser pronunciada, com aspas ou sem aspas.”

Italo Calvino “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante”

A reler um dos livros que gostaria de ter escrito se tivesse talento. Começa assim...

"Estás prestes a começar a ler o novo romance Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino. descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa que o mundo que te rodeia se esfume até se tornar indistinto. A porta é melhor que a feches; a televisão está ligada. Di-lo já aos outros: «Não, não quero veer televisão!» Levanta a voz, se não te ouvem: «Estou a ler! Não quero ser inomodado!» Talvez não te tenjam ouvido, com todo aquele barulho; fala mais alto, grita: «Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!» Ou então se não queres dizer não digas; esperemos que te deixem em paz."

Italo Calvino "Se Numa Noite de Inverno Um Viajante"

quarta-feira, agosto 06, 2008

Chamo-te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen